A visita ao atelier de Rui Chafes aconteceu numa manhã entre as serras de Cascais e Sintra, num armazém de trabalho, numa casa de infância, com a mota à porta pronta para o levar de uma lado ao outro. A casa podia ser aqui, o atelier ali, o lugar não lhe interessa, podia ser em qualquer sítio, o importante é o espaço ser só dele, ter o silêncio e o tempo para pensar. Mas o Rui às vezes também trabalha com equipas quando isso é necessário.


Fragmentos da conversa...
Almoçamos e conversamos


MAP:....para investigar tudo o que houvesse a investigar sobre um determinado objecto? É por isso que a série ...?

Rui Chafes: É... Eu acho que trabalho em séries para tentar perceber até onde é que posso ir, o que é que ainda há a fazer e... É uma característica bastante comum nos artistas da modernidade, desde o Mondrian ao Pollock, quer dizer..... Mas depois, se virmos bem, no fundo é comum a todos os artistas porque... é o que pensamos da pintura ou da escultura histórica, renascentista, gótica, medieval, o que se quiser ....quantas Madonas foram feitas?, Quantas Anunciações fizeram ?
As series tem a ver com o serialismo, com o minimalismo, o próprio modernismo evidentemente...mas também [tem] a história no seu sentido mais amplo são variações sobre um tema.
A mim interessa-me saber o que é que posso fazer com determinada forma, e vou investigando até chegar a um limite onde já não consigo investigar mais nada.

M: Quando a forma surge, tu já sabes que faz parte de uma série? Percebes que é necessário continuar a investigar?

R.C.: A primeira vez que surge é uma aparição, não é? Portanto, como sabem não sou eu que trabalho, sou apenas um meio de Deus, e Deus é que me dá ordens.
Eu oiço uma voz que me diz: “vai para a esquerda vai para a direita”, e eu sou um mero executante. E quando aparece uma dessas peças, a primeira peça nunca faz parte de uma série...
Eu chego a uma peça que a maior parte das vezes não é o resultado de uma pesquisa nem de um estudo, mas sim uma aparição.
Eu trabalho por aparições, eu posso trabalhar todos os dias mas não se pode ter uma aparição todos os dias... E quando menos se espera encontra-se uma ideia.
A primeira ideia é uma coisa única.... No meu caso despoleta na terceira ou na quarta (vez que faço a obra)porque ainda não percebi a peça

Isto não tem a ver com múltiplos, no fundo pode ser uma peça que me deixa insatisfeito e portanto tenho de fazer uma segunda e uma terceira para ver se me sinto mais satisfeito

Para mim há um exemplo típico – para além de o da modernidade – de um artista, que nunca foi considerado como um artista que trabalha em séries, em toda a sua vida artística, que é o Giacometti.
Eu vejo as séries como investigações, não é sobre a ultima ser melhor que a primeira mas é sobre investigar até onde é que posso ir e a investigação pára quando já não há motivação.

MAP: E estas peças com 5/10 m?

RC: Fiz umas quatro... uma em Paris, uma na Bélgica, uma no Norte do país...envolve dinheiro ainda há coisas que eu não fiz que quero fazer. Talvez noutras portas, nós quando o artista trabalha ele está a tentar abrir portas, e abrir uma porta significa dar um passo que ainda não dei, o que acontece muitas vezes é que ainda não estamos em posição de dar esse passo.
Muitas vezes ainda me falta tirar aquela e aquela duvida.

É uma arte de tempo, tudo isto demora tempo, é caro demorar.

Não é dinheiro para a pessoa ficar rica mas para a pessoa poder criar, tenho de ter tempo para a realizar, não é uma arte rápida, eu acho que com 80 anos vou começar a perceber o que fiz.
Não me é possível fazer fisicamente mais depressa.

Nunca faço maquetas, eu vejo a maqueta na arquitectura de forma positiva por exemplo na implementação no terreno, mas fazer uma maqueta nunca me aconteceu na vida.


MAP: E os vizinhos do atelier?

RC: Tinha aqui uma amiga que já morreu que tinha 90 e tal anos, que vivia aqui em frente, engraçadíssima......muito bem educada, uma pessoa com muita graça, uma diplomata, e vinha aqui e dizia: “oh Rui eu acho que era melhor aquela parte ser mais para a esquerda...ou aquela para a direita” e eu respondia: “também acho, vou fazer isso”.
Ela vinha e dava as suas opiniões: “eu se fosse a ti punha a peça mais para aquele lado” e eu respondia: vou pensar nisso obrigado.”

E agora não vem cá ninguém, tirando o jardineiro que vem cá regar as plantas todos os dias, não vem cá ninguém, só se eu preciso de ajuda para mover uma peça.
Isto não é um sitio de passagem de ninguém.

  • Data: Outubro de 2012
  • Local: algures
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