No início do ano de 2016 o ProjectoMap esteve à conversa com o artista Nuno Sousa Vieira, durante a montagem da sua exposição “From Darkness to Light” na Galeria Graça Brandão, em Lisboa. Esta é a primeira vez que no contexto das “Visitas de Atelier” visitamos a montagem de um exposição para a nossa conversa com o artista. 

“From Darkness to Light” esteve patente na Galeria Graça Brandão de 16 de Janeiro a 27 de Fevereiro de 2016. Uma exposição constituída a partir de dois conjuntos de imagens, sendo uma delas a que dá nome à exposição “From Darkness to Light”, um slide de vídeo para a Lanterna Mágica pintado à mão, do início do séc. XX. Nuno Sousa Vieira, abordou nesta exposição a questão da luz, um tema que surge no trabalho do artista de forma mais visível há dois anos, numa exposição em S. Paulo intitulada “Ouvi dizer que o lugar mais escuro é sempre debaixo da luz”. Aqui há uma preocupação pelo contraste entre a imagem, o desenho, e o próprio espaço da galeria. Uma discussão que ganhou existência na sua tese de Doutoramento na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. 

Gostaríamos de agradecer ao artista pela disponibilidade para nos receber durante a montagem da exposição e felicitá-lo pela concretização do seu Doutoramento. Obrigado Nuno.


ENTREVISTA EXCLUSIVA A NUNO SOUSA VIEIRA NO ÂMBITO DA EXPOSIÇÃO “FROM DARKNESS TO LIGHT” 

ProjectoMap:
Tu és o primeiro artista a quem nós não visitamos o atelier, mas visitamos uma montagem de uma exposição numa galeria, começando assim um novo ciclo nestas visitas de atelier. 

Nuno Sousa Vieira: Faz sentido, porque uma das primeiras coisas que digo é: o meu atelier sou eu e é o lugar onde eu estou. Existe um lugar paradigmático no meu trabalho nos últimos anos, que é o meu atelier. O meu atelier tem diversas particularidades que eu acho que são muito fortes nos dias de hoje. É um espaço abandonado, um espaço industrial, que depois me coloca problemas com a minha escala humana. E depois eu não tenho capacidade para tomar conta dele e por isso deteriora-se… 

ProjectoMap: E é onde exatamente?

Nuno Sousa Vieira: Em Leiria. 

ProjectoMap:
Foi onde o teu pai trabalhou?

Nuno Sousa Vieira: Sim. 

ProjectoMap: E tu vês isso como um lugar da escuridão e quando vens para o espaço da galeria é o lugar da luz?

Nuno Sousa Vieira: Há uma coisa que me acompanha, a maneira como olho para o mundo é uma maneira de viver, não há uma linha entre agora sou artista e agora não sou. Paralelamente a isto, desenvolvo a atividade da docência com os meus alunos, que para mim em termos pessoais é uma coisa vital porque obriga-me a preocupar-me com assuntos, que não seriam naturalmente os meus. Obriga-me a entendê-los de outra forma e isso modifica o meu processo criativo. Então essa tomada de consciência começa a ser muito determinante na minha orientação e estudo, nas minhas próprias exposições e no desenho das próprias obras.

ProjectoMap: De facto, como te explicámos teve que existir uma pausa no nosso projeto. É um projeto sem fins lucrativos do qual somos completamente apaixonadas. Temos 300 artistas neste momento e não estão todos online, mas a verdade é que faltam aqui braços. O ProjectoMap é muito real e torna-se horizontal pela maneira como os artistas se convidam uns aos outros, e é exatamente por ele não ser um site mas um projeto, que uma das suas características é o contacto com os artistas. Achámos que tínhamos que começar isto outra vez, e começamos por uma montagem. Esta passagem não é inocente, não acontece só por acaso…

Nuno Sousa Vieira: Em todo o caso, toda esta exposição é uma própria maquete do meu atelier. Ou seja, aqui é o telhado, as águas estamos a ver ao contrário. Ali é uma pala que existe na entrada principal e o que nós vemos aqui são um conjunto de maquetes de madeira. E este chão é um chão do atelier que foi retirado. 

ProjectoMap: E como é que surge tu acabares no atelier onde o teu pai trabalhava? Tu vives muito com a validade da construção do objeto. Fazes muito ready-made…

Nuno Sousa Vieira: O meu percurso académico é muito estranho. Comecei no Porto, passei pelas Caldas da Rainha e vim para Lisboa. Eu sou o único que não nasci no Porto, nasci em Leiria porque o meu pai era jogador profissional de futebol e acaba a carreira dele a jogar na União de Leiria. O meu pai só foi para lá com a troca de lhe arranjarem um trabalho, para dar continuidade à vida. Era de um sócio da União, que era sócio desta empresa, e o meu pai acaba por ir para lá. Começou por ser uma indústria de plásticos, baldes, brinquedos para miúdos. Eu conheço aquela fábrica. Eu próprio mais do que uma vez nas férias trabalhei lá. Mais tarde, aos donos da estrutura que são amigos da minha família, perguntei-lhes se podia ir para lá trabalhar e eles cederam-me aquele espaço, no qual estou desde 2001.

ProjectoMap: Sozinho?

Nuno Sousa Vieira: Durante muito tempo trabalhei com a Rita que é minha mulher e também é artista. 

ProjectoMap: Habitar o espaço é difícil? 

Nuno Sousa Vieira: Em 2008/2009 há um incêndio muito próximo do posto de tensão da fábrica que por razões de segurança foi cortada a luz e a água. E como é que se trabalha num espaço sem água e sem luz? Não se trabalha. Ou trabalha-se de outra maneira e é isso que eu vou ter que descobrir. Há pessoas que têm ateliers muito pequeninos e trabalham e há outros que têm maiores e trabalham…eu tenho muito espaço e não tenho essas condições. Por isso esta questão da luz, que passo permanentemente sem ela é muito importante para nós. No entanto obriga-nos a uma elasticidade, a repensar todo um processo criativo. 

ProjectoMap: E desde 2008 que não tens luz? Para quem não trabalha com luz, está mal. Então o teu teste final foi esta montagem? 

Nuno Sousa Vieira: Não. Não é uma estratégia definida, aqui acabou por ser. Portanto eu tenho outro problema nesta altura que é: como é que se mantém a segurança numa fábrica daquela tamanho. Todas as fábricas abandonadas são rapidamente vandalizadas. E o que é certo é que aquilo não está como estava em 2008. Eu comecei a retirar coisas de lá para produzir, ou seja cada coisa que eu tiro, eu trabalho a sua ausência. 

ProjectoMap: E nesta procura que falamos sobre ausência, luz, a repetição que nos leva sempre a um lugar diferente. Há um percurso, o que é este caminho e quais são as problemáticas que definem o teu trabalho como artista?

Nuno Sousa Viera: Há uma coisa que me preocupa muito e da qual quase todas as minhas esculturas são esculturas para pessoas. Há uma relação muito antropométrica, os objetos escolhidos para transformar, são objetos utilitários e a sua escala é de uma maneira geral determinada em função do corpo humano. Mas o que me interessava aqui é isto: o tamanho da construção para o homem e o tamanho da construção para a memória. E é absolutamente extraordinário como nós fazemos umas casinhas para nós e uns objetos enormes para a nossa memória. E essa proporção é replicada por um obelisco que está desenvolvido pela minha réplica, e da própria fabrica, e da própria entrada do atelier. E é isto que me interessa nestas imagens. É esta questão da memória e da escala para a memória, uma memória absolutamente determinante para nós. 

ProjectoMap: É que há uma homenagem muito clara, porque é que há tantos objetos? Eles formam uma obra total, mas por si só são uma obra. 

Nuno Sousa Vieira: É o meu processo criativo e todas têm título. A questão da memória é também um fio condutor no meu trabalho. Tu pegas num espaço que tem a memória do teu pai, portanto é aquilo que nós fazemos de algo que já foi, mas depois nós damos continuação e reconhecimento. Eu não apago as marcas do uso. Eu podia pegar numa porta lisa mas não me interessa. Interessa-me uma porta usada. Eu posso não saber a história daquela peça, não é a história da peça que interessa é as histórias com portas. É essa coisa que depois do particular chega a uma memória coletiva.

ProjectoMap: Tu colecionas memórias e as obras são uma coleção de sedimentos. Há uma relação emocional fortíssima. 

Nuno Sousa Vieira: E há esta peça, que se chama fichário para noite escura. Nos primeiros cubos negros do Tony Smith, quando ele visitar um amigo, viu uma caixa, uma caixa preta, um fichário preto. Ele ficou absolutamente fascinado com aquela caixa preta e com a sua. Quando chega a casa, telefona ao amigo e pede-lhe as dimensões da caixa. E eu tinha um fichário que erra em dois milímetros a caixa do Tony Smith e eu resolvi pintá-la de preto. 

ProjectoMap: E esse fichário, era fichas de quê? De presenças na fábrica? 

Nuno Sousa Vieira: Não, de contactos. O que é absolutamente vital para o exercício daquela atividade. E porque este objeto, é um objeto escultórico. 

ProjectoMap: E nesta fotografia é o teu pai?

Nuno Sousa Vieira: É o meu pai. Interessa-me as relações fisionómicas que tenho com ele e interessa-me esta relação do tempo e esta confusão.

ProjectoMap: Sim, mas é que o tempo é uma confusão e nós é que da nossa memória e do nosso posicionamento no tempo e no espaço é que o organizamos. Portanto isso faz todo o sentido.

Nuno Sousa Vieira: Interessa-me também que a parte de trás seja exposição por isso vai haver aqui uma linha de desenhos. Eu sou completamente viciado em desenho e em objetos de desenho e réguas, esquadros e compassos, pantógrafos. E a exposição fica encerrada com o vídeo.

  • Data: 22-12-2016
  • Local: Galeria Graça Brandão, Lisboa
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