A visita de atelier de Miguel Palma decorreu em Janeiro de 2016, no seu espaço de trabalho situado no Marquês de Pombal, em Lisboa. Estiveram presentes as curadoras Verónica de Mello e Alda Galsterer, as quais conduziram a entrevista ao artista. Desta conversa extraímos um áudio que se encontra nos arquivos do ProjectoMap. Partilhamos aqui um resumo da conversa acerca da relação do artista com o seu atelier e um registo de fotografias. Queremos por fim agradecer ao Miguel Palma por esta oportunidade. 

ENTREVISTA EXCLUSIVA A MIGUEL PALMA SOBRE O SEU ATELIER

ProjectoMap: Nós começamos sempre por perguntar porquê este atelier e qual a tua relação com o atelier?

Miguel Palma: É longa a história dos ateliers. O primeiro atelier foi nos anos 80 e foi em casa dos meus avós. Era uma estufa e passou a ser o meu atelier desde os meus 20 anos até aos 24 anos, e o primeiro espaço que considerei ser o meu atelier, onde podia receber pessoas e ter um ritmo de trabalho mais interessante. Era em Sintra, em Colares. Nesse espaço estive até 2004, 2005. Depois tive um atelier grande em Oeiras, o da “fundição” onde estive até 2008. Daí fui para Lisboa e tive um atelier ao pé da Avenida da República e era uma casa grande, onde a dividi ao meio, uma parte para viver outra parte para o atelier, onde estive até 2011. Depois tive um atelier pequeno porque estive algum tempo fora de Portugal, numa residência artística. Desse lugar desde há dois anos vim para aqui.

ProjectoMap: Tu não fazes grande diferença entre o atelier e a tua casa; ou o atelier é só uma zona de trabalho?

Miguel Palma: Não há grandes diferenças para mim entre o atelier e a casa até porque mesmo quando estou em casa, mais concentrado em tarefas familiares a minha cabeça está sempre a pensar no trabalho. Portanto isso é a nível da cabeça. A nível físico acabo por misturar um bocadinho as coisas. É aqui onde as coisas são construídas, testadas e pensadas…

ProjectoMap: E o que é que te faz escolher um atelier? Ou um atelier pode ser um espaço que tu habitas de qualquer forma? Miguel Palma: Neste atelier especificamente eu encontrei uma coisa que me interessa que é para além de ter algum espaço, eu tenho em cada sala uma ideia. Aqui, neste momento, temos dois trabalhos, duas pequenas instalações que estou a construir. Na sala ao lado estão também dois trabalhos que estão a ser pensados. Depois tenho ainda as pessoas que colaboram comigo e que ocupam esses espaços. 

ProjectoMap: Sentes que são como compartimentos do teu próprio cérebro?

Miguel Palma: Sim, ajuda-me de certa forma, porque cria uma certa ordem. Os espaços mais compartimentados ajudam-me a pensar. Mas eu tenho fora do atelier, pessoas que encontram coisas e que procuram objetos que me interessam. Portanto, o meu dia não é fechado aqui dentro do espaço. O que eu quero dizer é que estes objetos que vivem comigo no dia-dia, e que aqui é uma pequena parte, porque em Torres Vedras tenho também outro espaço, são coisas que eu vivo, que ao longo dos anos vou de alguma maneira exercitando. E imagino o que elas significam, ou o que podem ser daqui a algum tempo para uma nova ideia. No fundo, eu tenho um banco de imagens e objetos…

ProjectoMap: Nós conhecemos o teu trabalho há alguns anos. Há algumas obsessões, repetições de um trabalho constante, sobre esta questão que é a paisagem industrial? 

Miguel Palma: Eu só gosta das obsessões por uma questão. Porque a obsessão tem uma carga negativa muito grande. Mas há um lado que me agrada. Que é num mundo onde as pessoas são tão voláteis, tão pouco concentradas naquilo que fazem, eu encontro nas pessoas que colecionam um grande lado de dedicação. Como “eu não sei de nada”, só sei um bocado sobre cada coisa, dá para imaginar tudo o resto. 

  • Data: 27-12-2016
  • Local: Marquês de Pombal, Lisboa
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