ENTREVISTA COM NORONHA DA COSTA: “EU SEM MAR NÃO VIVO” 

Recebe-nos num espaço que lhe diz muito [estamos no atelier do artista no Estoril]. Esta relação com o atelier e com esta casa-atelier – como tem sido ao longo da sua vida de trabalho? 

O meu trabalho passou por sítios completamente diferentes, primeiro, comecei por ter atelier com o Eduardo Nery em Campo de Ourique (a ex-mulher dele, a Ana Vieira foi uma grande amiga minha), mas isso foi há muito tempo. Depois passei para um armazém na Quinta de Figo Maduro, precisava de espaço e fui apreender com quem pintava carros... Passei por muitos lugares. Eu comecei a fazer colagens que o José Augusto França ‘embandeirou em arco’, que eram páginas tiradas de revistas de moda ou do Paris Match em que pintava as páginas com óleo de linho; e ficava com a imagem da página só de um dos lados; tenho muita pena, mas já não tenho nada disto, isso foi nos anos 70, ainda na faculdade de arquitectura; sou arquitecto! Eu trabalhei sempre em espaços completamente diferentes. Porque o Eduardo continuou com o trabalho dele, e eu comecei a fazer objectos. Ninguém pensava em objectos, falavam da ‘crise da arte’, e eu fiz os primeiros objectos. Eram objectos que foram feitos muito antes das ‘Primary Structures’ que os Americanos estavam a fazer. Disso tenho ali, depois mostro-vos. Eu passei dos objectos para a pintura... [e mostra as pinturas que tem na parede da sala do atelier] E na pintura depois comecei a pintar com pistola para ter o efeito que queria. Mas o resultado foi mal, e não me satisfez, e então pensei que tinha que aprender com quem sabe fazer, com os pintores de automóveis, e não sei que... E foi num bairro da lata em Lisboa (um bairro da lata “simpático” por assim dizer) a caminho do aeroporto, onde eu fui ter com uns senhores a dizer que precisava de aprender a pintar assim. Estávamos para aí em 1972. Já nem sei se aquilo existe ainda... É nessa altura que começa o meu primeiro contacto e interesse nas tintas celulósicas... Secam rapidamente, gostei delas pela transparência. Depois também tive uma fase com óleo, tem algumas faculdades muito melhores, mas demora muito mais tempo a secar; e se há danificações, não se consegue recuperar. Isso com as tintas celulósicas não acontece. Bom, o atelier para mim é um espaço de trabalho, e agora sinto-me feliz, gosto de trabalhar aqui. Esta casa era da minha mãe, o Estoril diz me muito, a relação com o mar é muito forte para mim, essencial, cresci com ele ao lado. E a luz aqui é muito especial, tenho uma ligação desde a infância com este local, que é muito forte. Foi aqui que vi o mar pela primeira vez bem como uma árvore também. Com a minha primeira mulher fui viver para Lisboa, mas depois voltei para aqui, para o mar. 


Como vê a relação da sua obra com a arquitectura? 


A arquitectura é a sua formação de base e Leonardo da Vinci uma das grandes referências da sua obra Total! Eu fiz arquitectura, e fiz uma casa (no Algarve) da qual gostava muito. Era sobre o mar, e criava todo um percurso numa homenagem ao mar. É que o mar para mim é cheio de romantismo. Eu sem Mar não vivo... Mas existe realmente uma relação entre a minha obra pictórica e arquitectónica que é muito grande: tem a ver com o espaço que na cultura ocidental é muito forte; a pintura desde o Renascimento também tem tido uma relação grande com o espaço e tem-na mantido. Para mim tanto a casa no Algarve como a minha pintura, relacionam-se com o espaço e por isso com a arquitectura. Para mim a relação com o espaço está sempre presente no meu trabalho, há espaço dentro da tela, vários planos, uma tridimensionalidade forte que exploro. Para mim, o objectivo final na pintura foi sempre o de tentar obter uma “holografia”. Do Leonardo da Vinci: ele é de facto uma grande inspiração, ele também foi arquitecto e pintor, e o esfumato que uso também tem a ver com ele. 


Na sua obra até aos anos 80 aparece muitas vezes a figura humana, no meio de um espaço aberto, na natureza, etc. Essa figura da mulher – sozinha ou em pares – relaciona-se com o erótico? 

Sim, claro, talvez não diria isto desta forma, mas claro que a figura da mulher se relaciona com um espaço físico relacional e também com o erótico. Como dizia um crítico espanhol que escreveu no Jornal El Pais “a tua busca em torno do romantismo, na cara das mulheres que pintas, está lá tudo e não está lá nada”, gostei particularmente deste comentário sobre a minha obra.O facto de as figuras aparecerem retratadas com características (roupas, penteado, acessórios) que as colocam num tempo do passado, e a “névoa” que se encontra em torno e por cima delas, foi para cruzar vários tempos no tempo da pintura. Disseram que eu fazia pintura sobre pintura – as sobreposições das imagens e pintura nos meus quadros.Na altura viajava muito para Paris, para me encontrar com o Costa Pinheiro, a Lourdes Castro, e o Palolo também. E o Costa Pinheiro encorajou-me muito para ir viver para lá para ver outras coisas, e aprender mais. E disse que acreditava na minha busca em torno do Romantismo. 

O Sr. Arquitecto diz que fazia “Pintura sobre Pintura”, diz que a imagem é importante e que todo o resto é “lixo”, e por isso interessa-nos saber o que é a imagem para o Luís Noronha da Costa?

Hm. Vou dizer, como hei de explicar... Todos nós neste instante, aqui neste momento, os quatro, temos uma imagem da Torre Eiffel; e esta imagem pode-se dividir em 2 coisas – a imagem hermética da Torre Eiffel, que conhecemos e que é uma torre de ferro, e a imagem noética – que aí cada imagem que temos na cabeça da torre é diferente em cada pessoa, porque já tem a ver com a imagem que é formada pela memoria e experiência de cada um, e aquilo que vemos nela, e o que representa para cada um de nós. E essa é diferente. A imagem noética por assim dizer corresponde à imagem mental que cada um tem dentro de si. Eu procuro sempre quando pinto, p.ex. uma mulher – não a mulher, mas a imagem que cada um de nós tem na cabeça, daquilo que é [para cada um] a mulher; normalmente uma imagem de uma época do passado, romântica ou vitoriana... 

Representou Portugal na Bienal de Veneza em 1970 era novo, tinha 38 anos. Qual foi o impacto que teve a sua presença nessa bienal e na Bienal de São Paulo.

Éramos 3 a representar Portugal na Bienal, estava eu, estava a Zé Rodrigues e o meu estimado amigo ... [não se entendeu muito bem: Moitas]. Na altura não tive nenhum prémio, mas pronto... Ter representado Portugal nas Bienais de Veneza (1970) e São Paulo (1969) que são as Bienais marcou muito a minha obra. Não tive crítica nenhuma, nem prémio nenhum, mas para já foi muito bom entrar por baixo do tecto sagrado de Alvar Aalto, o nosso Pavilhão era tão bonito e tão pequeno, mas muito bonito. Isso foi uma honra muito grande. As pessoas entravam e viam tudo muito devagar. Olhavam, paravam, na Bienal de Veneza, estava com a minha [primeira] mulher lá e estava feliz. Teve impacto no sentido que eu cito e refiro sempre isso, mas aqui não, aqui (em Portugal, nota das entrevistadoras) estavam por baixo de uma névoa do neo-modernismo e alguns poucos artista, ou pseudo-artistas, enfim dos quais não tenho que dizer os nomes, que eram os chefes dos que se fazia em Portugal. O que aconteceu foi uma campanha contra mim: de que eu não era nada… Naquela minha retrospectiva no CCB, esse grupo de artistas e amigos fizeram ao lado uma exposição deles, com o título “Conceitos para uma colecção”, muito simpático, não...? 

Lembramo-nos de uma obra sua que se encontra na Colecção do CAM – uma imagem escura que contem dois rectângulos, um ligeiramente maior que o outro, e que em cada rectângulo se encontra a mesma imagem; uma mais desfocada que a outra...

Gosto muito deste quadro, e depois foi para a Gulbenkian, na altura do Sommer. Foi uma experiência que fiz que correu muito bem. Tenho muita pena que neste momento não tenho nenhuma obra minha exposta no CAM. Mas fiquei muito contente quando houve aquela exposição – As Idades do Mar – na Gulbenkian em que um quadro meu esteve junto de vários artistas – com alguns dos maiores pintores portugueses – como o Amadeo de Sousa Cardoso e a Maria Helena Vieira da Silva. Fiquei muito contente. 


Será que se pode afirmar que a sua obra é directamente relacionada com o tempo? E para o parafrasear, o Arq. diz que “investiga o tempo prévio à formação da imagem”.
 
Assim voltamos outra vez ao início da nossa conversa, em que já constatamos que o tempo é um instrumento com grande relevância para o seu trabalho e a sua obra. 
É. [afirmativo] – Dizem que sim. A minha actual mestre é a Barbara Roth que fala sobre o meu trabalho, fiz lá uma exposição em Washington, e ela (Barbara Roth) cria uma relação entre a minha pintura e o Fernand Pessoa. Dizia então que a minha pintura é autóctone. Interessa-me a sobreposição de tempos, e de facto criar imagens noéticas... Tenho voltado a pintar e está a dar-me muito gosto voltar à pintura. Vou ter uma exposição em Espanha agora na altura da feira em Madrid. Depois mostro-vos as pinturas novas...

  • Data: 2015
  • Local: Lisboa
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