João Jacinto é um artista da 6ª geração do ProjectoMap, com um longo percurso artístico, desde o final dos anos 80, especialmente na área da pintura e do desenho. Atualmente é professor na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Com o privilégio de entrar no seu espaço de trabalho, situado no bairro da Ajuda em Lisboa, procurámos saber um pouco mais sobre os métodos da sua prática artística, a sua especificidade enquanto docente, a relação que mantém com o atelier, como também alguns apontamentos do seu percurso. 

“Eu preciso de muitas coisas e as coisas não me chegam”- foi assim que começou por nos explicar a imensa produção gráfica e a diversidade de trabalhos em curso com que nos deparámos no seu atelier.

ProjectoMap: Estávamos a pensar que é muito curioso este registo de pintura. Acaba por tornar-se um processo acumulativo e também matérico, embora os desenhos que vemos aqui sejam um pouco distintos.

João Jacinto: Para mim, a grande diferença essencialmente aparente, é que os desenhos são sempre figurativos e as pinturas são sempre abstratas.

ProjectoMap: Quais são as problemáticas? Os temas que lhe interessam e com os quais trabalha?

João Jacinto: Nenhuns. Eu não tenho isso, ou seja, se há coisa que eu detesto é o argumento. E portanto não tenho argumento.

ProjectoMap: É professor em Belas-Artes?

João Jacinto: Sim. Nesse contexto tem que existir argumentos. É óbvio que é diferente, enquanto artista posso fazer o que me apetece, enquanto professor estou dentro de uma instituição para a qual, com muitas dúvidas que possamos ter, há valores que não os podemos quebrar. Se olharmos ao nosso redor, o que não falta é arte com argumento, mas o que tenho eu a ver com isso? Nada. Enquanto docente, se para o aluno o argumento é fundamental eu tenho de o ouvir e aceitar.

ProjectoMap: É antagónica ou complementar esta relação de ser artista e professor?

João Jacinto: Eu seria um professor diferente se não fosse o pintor que sou, disso não tenho dúvida absolutamente nenhuma. Estão intrinsecamente ligadas. O inverso é provavelmente também verdade, seria um pintor diferente se não fosse o professor que sou. Se me pergunta, se me passaram pelas mãos muitos alunos que hoje são artistas? Sim. Todos os anos, aliás a esmagadora maioria de jovens artistas portugueses foram meus alunos.

ProjectoMap: Este atelier é o lugar onde sempre trabalha? Vive aqui? Qual é a relação com este atelier, foi sempre o mesmo? 

João Jacinto: Não, este é um atelier partilhado. O meu último atelier é esta bola gigante (aponta para uma fotografia na parede). Quando me farto, faço uma bola com tudo o que está no atelier, ponho fita e despejo-a no caixote do lixo. Isto aplica-se a tudo o que possa estar em curso, o que está concluído não. É só a preguiça de mudar para outro sítio. 

ProjectoMap: Quantas vezes isso já aconteceu?

João Jacinto: Três vezes.

ProjectoMap: Isso é quase a criação de um ritual…

João Jacinto: Não é um ritual, é uma questão prática.

ProjectoMap: Então não há nenhuma mensagem concreta que queira passar com o seu trabalho?

João Jacinto: A questão é, eu não sei se o faço porque quero dizer coisas. Dúvido. Duchamp dizia que “A posteridade de uma obra é o seu espectador” e eu acho que ele tem toda a razão.

ProjectoMao: E quem são estas caras, estes desenhos que observamos no atelier?

João Jacinto: São néscios. A definição de néscios é estupidez sem remédio.

ProjectoMap: Estes néscios são portugueses?

João Jacinto: Não sei. Um dos segredos da qualidade das obras é não as explicarmos, porque se nós contarmos as histórias, elas são todas muito estúpidas. Agora os néscios o que são? Não sei, um dia comecei a fazer um e às tantas no dia seguinte vinha outro e outro e fui enchendo o chão. Mas há aí muitas outras coisas debaixo, não são todas néscios. Eu gosto de um certo desplante em relação às coisas. 

ProjectoMap: Vamos falar um pouco sobre o seu percurso. Quando começou a pintar e a desenhar?

João Jacinto: Tudo começou nos bancos de escola, com inveja de quem desenhava bem e o fascínio por quem conseguia fazer um boneco que eu não conseguia. Tenho a vaga ideia de quando tinha 7 ou 8 anos ter visto num programa de televisão um homem com as pinturas atrás, os pincéis e uma coisa na mão, que não sabia o que era, que mais tarde vim a saber ser uma paleta. E aquilo fascinou-me, não sei se por teimosia ou birra, a partir dessa altura comecei a dizer que queria ser pintor e a coisa não mudou.

ProjectoMap: Onde estudou? Teve depois um percurso académico nas Artes?

João Jacinto: Nessa altura vivia em Mafra com os meus pais, portanto no percurso do liceu nunca tive nenhum contacto com a arte. Anos mais tarde entrei na Escola Superior de Belas-Artes, fiz cinco anos da Licenciatura em pintura.

ProjectoMap: E quais foram os professores que o marcaram nessa altura? Houve algum?

João Jacinto: O primeiro foi o Pedro Saraiva, logo no primeiro ano, foi alguém que eu percebi que estava atento. Aliás, entrei para a Galeria Módulo nos anos 80, tinha 20 anos, suspeito que por sugestão ou apresentação do Pedro Saraiva.

ProjectoMap: Continua a ser a sua galeria hoje em dia?

João Jacinto: Não, eu trabalhei 22 anos com a Módulo mas já saí há uns anos. De momento há duas galerias que me representam com regularidade, o João Esteves de Oliveira em Lisboa, com os trabalhos em papel e o Fernando Santos, no Porto.

ProjectoMap: Uma última pergunta, o que é que deverá acontecer à sua obra?

João Jacinto: Não sei, mas também não me interessa. Ou melhor, se me perguntar o que eu gostava que acontecesse é uma pergunta diferente. Há um verso de uma poeta Italiana que gosto, Cristina Campo que diz mais ou menos isto: ”…no instante da minha morte gostaria que todas as palavras que escrevi, subitamente se apagassem”. Isso era o que eu gostava!

Entrevista por Alda Galsterer e Verónica de Mello, Coletivo de Curadores
Fotografia: Joana Portela
Edição de texto: Sofia Caetano 




  • Data: 08-11-2016
  • Local: Ajuda
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