Graça Pereira Coutinho é uma artista nomeada por Crístina Ataíde para integrar o Mapa de Artistas de Portugal. Após o curso de Escultura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, em 1971 Graça Pereira Coutinho vai estudar para Londres como bolseira do British Council e frequenta uma Pós-Graduação na Saint Martin School of Arts. É neste contexto que encontra um estúdio em Berry Street, junto dos artistas ingleses e perto da mesma área onde também se encontrava a artista Paula Rego.

O ProjectoMap foi ao atelier da artista, localizado numa histórica quinta manuelina do século XVI em Camarate, para conhecer um pouco mais sobre a sua história de vida e experiências artísticas que viveu entre Portugal e o estrangeiro. Nesta localização pertencente ao concelho de Loures, a artista encontra dentro da quinta a sua permanência num antigo estábulo que contruiu como atelier, preenchendo-o com objetos e obras de instalação.

ENTREVISTA EXCLUSIVA DO PROJECTOMAP A GRAÇA PEREIRA COUTINHO


Onde é que estudou?


Eu estudei na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa e depois fui para Londres aos 21 anos, onde fiz uma Pós-graduação de três anos na Saint Martin School of Arts. Londres era assim TOP ao nível da arte contemporânea. Nesta altura o Governo tinha um sistema fantástico onde podiamos assim que saíssemos da Universidade arranjar um armazém que servissse de atelier. Eu tive vários estúdios por Londres e o melhor deles foi em Berry Street onde também estava a Paula Rego.

Podemos dizer que Portugal é só uma plataforma onde trabalha, porque na verdade trabalha para o mercado estrangeiro?

Quer dizer, presentemente é aqui. Porque a Todd Gallery, que funcionou durante vários anos era a galeria que me representava. Portanto, eu trabalhei com o Módulo, com a Galeria Graça Fonseca e com a Cristina Guerra e depois avançei como artista independente. E tem sido fantástico para mim como artista e como pessoa. Construí o estúdio, comecei a trabalhar e depois pensámos porque não vir viver para Camarate para aproveitar o espaço. Como miúda eu vinha apenas passar aqui férias e depois ia-me embora. 

Começamos a falar de viagens. A Indía influenciou o seu trabalho? Em que ano é que foi lá?

Claro que sim, eu era incapaz de mexer com cores há anos. Era tudo branco, cinzento, beje. Eu começei a ir à India em 86. Um sítio que também adoro é a América, o Canyon, os desertos, as flores petrificadas. Eu tinha pensado com o Manel em irmos viver para lá. O lado que eu mais gosto é o lado de Los Angeles, o Death Valley.

Quando trabalha as suas instalações e esculturas, quais as coisas que mais a preocupam no seu trabalho? A matéria?


A passagem do tempo. Digamos que o assunto da morte é uma coisa que sempre me preocupou até certo ponto. Pensar na morte, não no facto de ter medo de morrer, mas no significado que as pessoas podem atribuir aos pós, às cinzas. Todos nós vimos das cinzas e voltamos para lá, portanto o que me interessa é esse aspeto da fragilidade. 

Daí estes trabalhos serem muito frágeis. Há sempre um gesto, que implica o corpo. 


Exato, porque pintar não pinto. Matéria, corpo, a nossa ligação. Lembro-me muito bem da minha preocupação quando fui para Londres, era perceber o que estava por trás das coisas. Nós apercebemo-nos que existe alguma coisa à qual não temos acesso, mas podemos tê-lo se o quisermos. É portanto uma coisa que nós bloqueamos. 

Porquê este salto da escultura para a instalação? Nas instalações, é-lhe pedido que as faça para determinados espaços?


Digamos que a instalação, a nível de ideias, é a princesa do mundo da arte contemporânea. A instalação faz-se em relação com o espaço que se tem e com uma ideia que se pode ter ouvido. 

Fez instalação, vídeo, escultura. E o desenho é sempre algo que a acompanha desde o início?


É um medium fácil, até certo ponto, porque tem uma escala pequena. Eu acredito muito quando entramos num estado criativo, existe uma espécie de túnel a receber as ideias, os poetas e os músicos falam muito disso não é?

Porque é que usa vários planos? Porque é que o papel é colocado e porque é que existem vários?

São camadas. A coleção de papéis é quase a nossa pele, que vou incorporando.

Então o corpo é o elemento central. O corpo recebe e dá e o dar é o acto criativo?


Uma coisa que aprendi há muitos anos é a não fazer crítica ao meu trabalho. O meu papel é receber e fazer, e o fazer é onde está a grande parte maravilhosa de ser artista. Depois quando uma coisa está acabada, recebe o seu caminho, e nessa altura já cortámos o seu cordão umbilical. 

E custa-lhe por exemplo ver o trabalho a sair do atelier?


Não. 


Mais informações sobre a artista podem ser consultadas aqui. 
Fotografia: Joana Portela 
Entrevista e Direitos de Imagem: Associação Cultural Colectivo de Curadores



  • Data: 14-12-2016
  • Local: Camarate, Lisboa
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