Num atelier no centro de Lisboa, onde a luz é peça fundamental no campo de ação artística, fomos conhecer o espaço de trabalho de Fernanda Fragateiro. Com um corpo de trabalho que ocupa o espaço entre o bidimensional e o tridimensional, Fernanda revela-nos, com generosidade, um pouco do universo de temas e referências que utiliza, como nos aponta a direção do trabalho que se encontra em curso para a futura exposição individual.

ProjectoMap: A última vez que que estivemos no teu atelier era na Rua da Madalena, tinha uma escala muito mais pequena, mais próxima do corpo. Já em termos da luminosidade, há um certo paralelismo entre este atelier e o antigo, têm muita luz. Sentes que a obra mudou?

Fernanda Fragateiro: Essa era a ideia, que a escala do trabalho também se alterasse um bocadinho. No sentido em que a Madalena [antigo atelier] não me estava a ajudar, não podia sequer instalar peças muito grandes. Não tinha dimensão nem escala. Aqui a grande vantagem é que posso logo ver os trabalhos de um ponto de vista mais alto, o que para mim é muito bom porque trabalho muito com o plano do chão. Depois também me permite ter diferentes espaços de trabalho, sítios em que posso fazer mais lixo, mais barulho, como o espaço exterior, no fundo criar diferentes áreas de trabalho. Agora que estou a preparar uma exposição individual é que penso que vou tirar o máximo de partido deste atelier. Permite-me ensaiar as peças, montá-las neste espaço já à escala da exposição.

ProjectoMap: Quando e onde será essa exposição? Podes adiantar-nos?

Fernanda Fragateiro: Vai ser já em Janeiro, em Évora no Fórum Eugénio de Almeida, com a curadoria de Adam Budak. É um trabalho sobre a linguagem, o texto, sobre a relação entre a arquitetura e o texto, como se o livro fosse um pequeno edifício. O espaço do texto, o espaço do pensamento, o desenho. As peças vão atravessar o espaço, mas são feitas de fragmentos: um bocado como se fossem palavras, ou letras que se vão juntando e formando um texto. E portanto o trabalho vai ter muito a ver com a arquitetura. Mas com o pensar e não tanto com o construir, um pouco sobre a construção enquanto teoria do pensamento. 

ProjectoMap: Como é a relação com o atelier? É uma relação metódica, de todos os dias?


Fernanda Fragateiro: É, completamente working class! Chego às 8h30, agora como tenho um cão, ele vem comigo todos os dias, damos um passeio de meia hora, às 9h30 chegam também os colaboradores do atelier, começamos a trabalhar e por norma só saímos as 18h30/19h.

ProjectoMap: A luz do dia influência esse trabalho? Ou seja a luz modifica o trabalho, o ritmo ou trabalham também com luz artificial?

Fernanda Fragateiro: Aqui só no inverno, quando ficamos até mais tarde acendemos a luz. Aqui nunca nos sentimos fechados.

ProjectoMap: Que galerias te representam? Podemos afirmar que o teu trabalho não é local, achas que tem uma linguagem internacional? Como é a tua relação com as galerias estrangeiras, com exposições fora de Portugal?

Fernanda Fragateiro: A minha galeria mãe é uma galeria em Madrid, a Elba Benitez, é a que estou mais próxima e que no fundo me orienta mais na relação com outras galerias. Tenho uma galeria em Portugal e em Berlim também. Durante muitos anos em Portugal não tinha galeria nem ninguém interessado em trabalhar comigo. Como fazia muitos trabalhos de instalação tinha que procurar espaços alternativos.

ProjectoMap: É um desafio quando trabalhas internacionalmente, repensar todas estas questões que te preocupam noutros países? É mais fácil, menos fácil, é igual?

Fernanda Fragateiro:
Em termos de projecto é igualmente difícil, mas por exemplo a primeira exposição que fiz em Berlim foi mesmo sobre a cultura alemã. Fui à procura de coisas que me interessavam falar, mas são coisas que nos afectam a todos; aquilo que aconteceu na Alemanha em termos culturais são universais. Coisas locais que se tornam universais, nenhuma cultura é hermética.

ProjectoMap: A escolha do material não é só plástica, também tem uma posição crítica da tua parte?

Fernanda Fragateiro:
Sim. Com a situação mundial em que estamos, estou muito interessada em pensar em todas as pessoas que fizeram coisas maravilhosas em tempos mais difíceis. A mim interessa-me muito pensar e voltar ao trabalho de grandes artistas. A ideia é a de como podes em momentos absolutamente de limite, tal como uma guerra, perderes tudo e seres obrigado a deixar o teu país. Como é que consegues continuar a pensar e a desejar modificar o mundo e a fazer coisas incríveis, como é que consegues continuar a pensar num futuro? Esses artistas para mim são uma enorme referência, o meu interesse no modernismo tem a ver com isso. Interessa-me muito esta questão. O que é que poderia ter saído destes artistas, se não tivessem morrido prematuramente nestas condições, se não tivessem sido conscientemente apagados da história?

ProjectoMap: És uma escultora?

Fernanda Fragateiro:
Sim eu sou escultora, aliás sempre defendi isso desde o primeiro dia na escola de Belas-Artes, quando os meus trabalhos eram muito questionados porque os professores de pintura diziam que aquilo não era pintura e os de escultura diziam que não era escultura, porque eram coisas tridimensionais mas com uma carga bidimensional muito grande ou o contrário.

ProjectoMap: Tu achas que uma mulher escultora tem mais dificuldades que um homem escultor? Em termos de reconhecimento, do meio, das instituições, das galerias?

Fernanda Fragateiro: Eu espero que neste momento não seja tão evidente essa dificuldade, mas na minha geração foi extramente evidente. Eu lembro-me quando a maior parte dos artistas, homens ou não, olhavam para as minhas construções e instalações. Eu fazia coisas com uma escala muito grande e eles diziam-me que o meu trabalho não se parecia nada com o trabalho de uma mulher.


Obrigada Fernanda,
ProjectoMap


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Entrevista por Alda Galsterer e Verónica de Mello, Colectivo de Curadores
Créditos de fotografia Joana Portela
Edição de texto Sofia Caetano

  • Data: 30-11-2016
  • Local: Olivais
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